Como os antipetistas ficaram iguais aos petistas

Foi um choque, em 2005, quando a descoberta do mensalão revelou que o Partido dos Trabalhadores, até então paladino da ética e da moralidade na política, estava se lambuzando no poder. Muitos simpatizantes do PT sentiram-se indignados e não foram poucos os que caíram fora. Mas o povão não tem ideologia – ele vota em quem lhe dá melhoria econômica e social ou de quem espera que isso venha. Por isso, apesar do escândalo de corrupção, Lula foi reeleito presidente no final de 2006. Aos poucos, os políticos e os defensores do PT conseguiram levar o discurso para o lado ideológico. Nessa estratégia, duas frentes foram adotadas: 1) desqualificar qualquer crítica ao partido; 2) rebater todas as acusações de corrupção com contra-acusações de corrupção aos partidos de oposição.

Funcionou. Para os simpatizantes do PT, tornou-se desnecessário defendê-lo: bastava desqualificar e contra-atacar. Como o governo manteve sua política de dar crédito fácil para o consumo, para além de incrementar as políticas assistencialistas, notadamente o Bolsa Família, Lula conseguiu impor ao partido a candidatura de Dilma Rousseff, embora ela fosse oriunda do PDT e não tivesse traquejo político. Com o argumento de que se tratava de uma “gerentona”, Dilma navegou na onda lulista. Também ajudou na sua vitória de 2010 uma jogada de marketing eleitoral: a campanha petista espalhou que o PSDB queria privatizar a Petrobras e que isso tiraria do país a riqueza que viria da descoberta de gigantescas reservas de petróleo na camada do pré-sal.

Nessa altura o discurso passou a ter um viés ideológico. O PT conseguiu impor ao país uma discussão que, aparentemente, não fazia mais sentido (direita versus esquerda), uma vez que estava governando mais ou menos pela cartilha deixada por Fernando Henrique Cardoso. Para ser aceito pelo poder financeiro e industrial em 2002, Lula prometeu em sua famosa Carta aos Brasileiros que não iria fazer estripulias esquerdistas na economia. De fato não fez. Mas fez mais: conseguiu distribuir renda (ou crédito, pelo menos). Passou a ser visto por seus admiradores como um político capaz de redistribuir a riqueza sem romper a ordem econômica. Enquanto o Supremo Tribunal Federal punia políticos petistas envolvidos no mensalão (aquele que os eleitores já tinham perdoado em 2006), o debate se intensificou na questão direita-esquerda. Opiniões ultraconservadoras, como a dos deputados Jair Bolsonaro e Silas Malafaia, passaram a ser usadas pela esquerda para carimbar a imagem de políticos oposicionistas.

Em junho de 2013, quando o Brasil explodiu em diversas revoltas sociais pelas ruas, o enfrentamento ideológico se exacerbou. Num primeiro momento, todos foram às ruas protestar contra alguma coisa (sem saber exatamente contra o que). Logo depois, entretanto, as manifestações passaram a ser vistas como atos contra os governos (ou o federal ou os estaduais ou os municipais). “Não vai ter Copa” e “Vai ter Copa”, assim como outros lemas, passaram a dividir o país. Apesar de tudo (economia ruim, oposição cada vez mais forte e novos escândalos de corrupção), o PT conseguiu o quarto mandato seguido, com a vitória de Dilma em 2014. Paralelamente a uma administração desastrosa (repleta de incoerências com suas promessas de campanha), que levou a economia à recessão e a uma inflação anual de 10%, Dilma enfrentou uma oposição feroz no Congresso, dentro do PT e até mesmo em sua própria equipe de governo. Sem contar as ruas e os lares. Sua popularidade despencou. Mentiu tanto durante a campanha que seus pronunciamentos na TV passaram a ser acompanhados de panelaços de gente cansada com seu discurso.

A indignação contra a corrupção e a incompetência do governo, entretanto, soltaram as amarras de pensamentos ultraconservadores. Muitas pessoas passaram a defender o governo militar e seus atos repressivos, como se não tivesse havido corrupção e mau governo nos anos 60/70/80. De repente, ninguém mais teve vergonha de assumir que era de direita (o que foi um pecado no Brasil dos anos 80 e começo dos 90). Especialmente no Facebook, o discurso tornou-se raivoso. Memes estúpidos criados por defensores do liberalismo econômico passaram a ser divulgados na internet como se fossem verdades profundamente estudadas. O PT, ora vejam, passou a ser taxado como partido “comunista”. O fato de defender políticas e regimes identificados com a esquerda foi suficiente para que os antipetistas ressuscitassem até o comunismo! Extinto pela União Soviética em 1991 e “reinventado” por uma China estatista sim, mas totalmente capitalista, o comunismo está tão longe do Brasil como Marte da Terra, mas é comum vê-lo nas discussões sobre o Partido dos Trabalhadores e sobre o governo Dilma.

Recentemente, um jovem interrompeu uma palestra de simpatizantes da esquerda, em Goiás, sob o furibundo argumento de que um representante da CNBB não podia estar ali porque o Papa Pio XII havia excomungado todos os comunistas. Foi um pandemônio e um vídeo, divulgado por setores da direita com o objetivo de mostrar como a esquerda é raivosa, foi claramente produzido para provocar isso mesmo: confusão. Até aí, tudo normal – direita e esquerda usam desses artifícios de se infiltrarem no evento alheio para provocar baderna e saírem como vítimas. Mas o que chama a atenção é a ignorância do discurso, pois a CNBB historicamente esteve ao lado das esquerdas no Brasil. Lutou como poucas organizações pelo fim da ditadura militar e, apesar da guinada da Igreja para a direita, sua atuação histórica deve ser compreendida. Cabe ao papa e aos bispos serem contra ou a favor disso e não a um militante antipetista.

Resumindo, a rejeição ao PT ficou tão feroz que se perdeu a compostura. Jornalistas se referem a Dilma como “vaca petista” em seus perfis no Facebook, gente fina defende que um estádio inteiro grite “ei, Dilma, vai tomar no c…”, um cerco ao artista Chico Buarque em seu momento de lazer é comemorado por democratas, pessoas se julgam no direito de “expulsar” o ex-ministro Guido Mantega do Hospital Albert Einstein, mandando-o se tratar no SUS, e todas as tentativas de argumentação de um modo diferente de pensar da direita brasileira são imediatamente desqualificadas. Começou com o PT, mas agora está enraizada no movimento anti-PT. Os indignados de ontem se tornaram tão raivosos, tão chatos em sua indisposição de debater, tão donos da verdade, que muita gente que não comunga dos ideais do partido passou a defender o mandato de Dilma. Afinal, algo mais passou a estar em jogo no Brasil: a liberdade de expressão e a própria democracia.

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